Lirismo existencial e consciência épica na poesia de António Manuel Couto Viana, por Artur Anselmo

 

Lirismo existencial e consciência épica na poesia de António Manuel Couto Viana, por Artur Anselmo



Artur Anselmo



Em 1958, Jorge de Sena publicara a 3.ª série de Líricas Portuguesas, antologia de poetas contemporâneos que é, a muitos títulos, o exame de consciência crítica do nosso modernismo poético. No material de que então dispunha para o estudo da obra de António Manuel Couto Viana (O Avestruz Lírico, 1948; No Sossego da Hora, 1949; O Coração e a Espada, 1953; e A Face Nua, 1954), Jorge de Sena encontrara motivos para afirmar: «A sua poesia, se não é muito original na elegância consumada com que usa a versificação e a imagística de épocas e gerações anteriores, é porém originalíssima e muito significativa na maneira como leva todo esse arsenal expressivo às suas últimas consequências, para revelar, sem rodeios nem reticências e com a autoridade de sua lúcida consciência política, uma personalidade inteiramente despojada de quaisquer compromissos humanitários ou humanísticos, encerrada numa auto-ironia devastadora, de uma frieza que brinca com os próprios limites, adentro dos quais se resguarda ciosamente, num misto de orgulho e desespero, uma sensibilidade fina e depurada. É como poucas, e num alto nível, a poesia de uma mentalidade e de um tipo de formação que o poeta assume e aceita com coragem e rude franqueza.» Estas palavras, aplicáveis de justiça à primeira metade da obra de Couto Viana, servem igualmente para caracterizar a tonalidade dos três livros posteriores (Mancha Solar, 1959; A Rosa Sibilina, 1961; e Relatório Secreto, 1963). Mas é evidente que os problemas centrais da sua personalidade poética mais se adensaram em cada um desses volumes, a ponto de, na maior parte das composições aí reunidas, se antever praticamente impossível uma saída de tipo voluntarioso para caminhos diferentes. A imagem adequada à evolução do poeta é, antes, um novelo: emaranhado de reacções físicas e psicológicas que ele aceita com autonomia e presciência. Daí, do conhecimento da sua própria inclinação substantiva, uma das constantes da obra poética de António Manuel Couto Viana.

Para quê inventar novos esconderijos?

Para quê sonhos vãos de herméticas redomas?

Não estamos seguros. Jamais estaremos seguros:

Vivemos ainda, mas sobre o abismo irremediável.

[…]

Para quê fingirmos de obstáculos?

O golpe não virá da esquerda ou da direita:

Em cada cérebro há um cogumelo venenoso e extremo

Que lançaram do céu, como uma cruel bênção.

 

Repare-se que Couto Viana abandona por momentos a 1.ª pessoa do singular, forma habitual da sua expressão nos primeiros livros; e, embora interrogando-se acerca da origem destes versos em termos que não excluem pessoalização («Ouvi estas palavras. De quem? Minhas?»), é bem certo que neles desperta um assomo de consciência comunitária.

O facto tem explicação, tanto quanto explicações deste género são permeáveis à realização poética. Lembre-se que a publicação de A Face Nua coincidira com o desaparecimento da revista Távola Redonda. Ora, a quem tenha lido os 20 números das folhas de poesia que António Manuel Couto Viana dirigiu (com David Mourão-Ferreira e Luiz de Macedo), não parecerá estranho que na estrofe inicial de Mancha Solar se diga «não estamos seguros», em vez de «não estou seguro»: esboçada com afectuosa energia a solidariedade que o pronome nós expressivamente subentende, o quase permanente solipsismo de volumes anteriores teria de ser fatalmente limitado ao mundo de sensações pessoais. (De resto, a mesa redonda que dera o nome à revista estaria presente, em 1956, no lançamento de Graal, onde colaboraram os principais animadores da Távola.)

É curioso verificar como, em Mancha Solar, a mesma ideia colectiva se exprime por mais de uma vez. Na poesia «Pedra Tumular» – que tem figurado como exemplo clássico, quando se procuram afinidades entre poetas da geração de Couto Viana –, a amplitude, o valor e o significado das palavras são muito mais latos, pois valem para toda uma idade literária:

A minha geração fugiu à guerra,

Por isso a paz que traz não tem sentido:

É feita de ignorância e de castigo,

Tão rígida e tão fria como a pedra.

Desfazem-se-lhe as mãos em gestos frágeis,

Duma verdade inútil por vazia,

E a língua imóvel nega o som à vida,

Por hábito ou por falta de coragem.

Se há rumores lá de fora, às vezes, lembra:

Porque é que pulsa o coração do mundo,

Precipitado, angustioso, ardente?

Mas depressa submerge na indiferença

– Que lhe deram um túmulo seguro;

E o relógio dá-lhe horas certas, sempre.

 

A situação destes versos é por demais conhecida: tendo assistido, na adolescência, a duas guerras (a guerra civil de Espanha e a de 1939-1945), que implacavelmente lhe acentuaram o cunho de uma permanência feita de inconstâncias sucessivas – própria da qualidade de espectadora irremediável –, a geração «duma verdade inútil por vazia» havia de reflectir naturalmente as consequências de uma paz «que não tem sentido». A reacção contra este facto seria, algumas vezes, pouco mais significativa do que pueril: e aí tivemos a cópia de um «espirit de résistance» sem adequada viabilidade ou mesmo sem qualquer justificação material; mas seria também, mais raramente, autónoma e consciente, embora expectante: e aí tivemos a poesia de um Couto Viana, surda aos convites de activismo receitual daqueles que «escolheram a paz» só «porque essa guerra» (para ninguém oculta) «destrói o corpo todo».

Poderá inferir-se daí que António Manuel Couto Viana optava abertamente por uma neutralidade de feição decadentista; que era insensível ao desejo unânime de paz; que troçava de todos os sentimentos humanitários adstritos à ideia da guerra? Acaso «este olhar / Sobre o que vai e vem – onda do mar, / Informe, sem idade» constituiria a posição ideal num mundo onde todas as posições se achavam ameaçadas? Mais de uma vez, por escrito, lhe fora assacado semelhante pecado. Porém, sempre, nestes casos, a sua obra poética fora contemplada de um só lado, esquecendo os acusadores que não faltavam, nos textos, ocasiões de categórico desmentido:

Renasça, livre, o homem

P’ra cantar a semente,

O sol, a noite, a esperança

E um rio tumultuoso

E vivo que refresque,

Sem margens, como Deus!

 

O facto de não existir na obra de Couto Viana uma bitola de significados transparentes dava origem a equívocos. Acrescia que casos de aparente poesia circunstancial, como as «Variações sobre o mesmo tema» incluídas em Mancha Solar, eram taxados de rotineiros, quando aí se exibiam, no mais alto grau, demonstrações de originalidade formal:

Este dia foi útil para alguém?

Trajectória solar: valeste a pena?

Se cada hora aconteceu serena…

Que saudades da angústia, além, além!

 

O tema é possivelmente o mesmo; as variações, respeitando embora o vazio do tema, ultrapassam-no poeticamente. Não há nisto nada de original. Mas a originalidade existe, se não no significado dos vocábulos, ao menos na sua apresentação morfológica ou no próprio significante de cada uma das palavras escolhidas.

Esse equilíbrio inseparável da originalidade é, de resto, uma das constantes da obra do poeta. Mas os versos bem medidos, a linguagem depurada e a perfeita realização cinética que as suas poesias envolvem, tudo isso que gera o equilíbrio e modela os acentos mais originais, isso tudo Couto Viana desmente como centro da sua própria poesia: como homem, às vezes de Deus («Meu Deus, ainda preciso repetir / Há Deus…), às vezes escravo de conflitos tumultuários («A paisagem com Deus é paisagem sem paz!»). O equilíbrio não anda, por certo, na motivação de versos onde aparecem expressões como «adeus desesperado», «impenetráveis teias», «mísera colheita», «desmedida paga» e, ainda uma vez por todas, «o coração e a espada». Aí reside um dos atractivos principais da leitura de António Manuel Couto Viana, poeta em cuja obra o equilíbrio constitui apenas o modo natural de transmissão literária, que não limita, e antes enriquece, uma variada e dramática floração de contrastes existenciais. Classicismo e inquietação não se mostram incompatíveis.

A Rosa Sibilina prolonga, de forma cada vez mais inquieta, o irreparável conflito interior que fora assinalado em livros anteriores. Há, agora, no entanto, uma tensão realizada esteticamente com maior perfeição ainda, extremamente dilucidada pelas virtualidades técnicas mais intensas e expressivas. O poema continua a ser um todo, a imagem uma busca, a busca um caminho para as origens:

Os cavalos desfloram a floresta

Em busca de que forma fugitiva?

 

Integralmente construído, o poema não deixa de propor um paralelo desenvolvimento dos frutos quotidianos; e é com frequência que a incompleta gradação de uma composição vai fechar-se em outra. A linguagem é reclamada pela força de cada verso; e, mais ou menos irregular, sem predomínio de determinada raiz morfológica, consuma-se no próprio impulso criador, que tão remotamente a solicita:

A lama cresce na rua escura;

Tapa as estrelas verdes do gás.

É qual navalha na mão impura

Cada palavra. Fome, assegura,

Com cerces golpes, a inútil paz.

 

Dominando o sentido das formas poéticas clássicas, a riqueza proporcional da linguagem escrita, a medida exacta, António Manuel Couto Viana está muito longe dos raros autores que, já em nossos dias, por aí se ficaram sem mais aquelas, na despeitada quietação de quem faz os possíveis por viver isolado da sua época. Com efeito, o vocabulário deste poeta, arrancado às grandezas e desforços do tempo presente, desloca-nos imediatamente para um caminho de progressão contínua: avanço, modernidade, consciência biológica do volume de um corpo na consciência do espaço obrigatório. Por isso, o rótulo de existencialismo, na acepção de modernas tendências filosóficas, não estaria de todo mal escolhido como termo de uma análise rasteira dos últimos livros de Couto Viana.

David Mourão-Ferreira sublinhava que, «na poesia de Couto Viana, os problemas valem por os sentirmos radicados em preocupações existenciais […], que obtiveram, por seu turno, adequado desenvolvimento formal». Foi a ampliação desta origem conflituosa que se patenteou em obras posteriores, particularmente nos versos de Mancha Solar e A Rosa Sibilina, mas o poeta não alcançara ainda – pelo menos na expressão formal – a intensidade dramática que se documenta em Relatório Secreto:

Fiquemos por aqui,

Antes que seja tarde

E a convivência atinja

O extremo do ódio;

Antes que o movimento

Que jorra dos teus flancos

Se converta na máquina

De acre suor e náusea!

 

O parentesco com esta manifestação de intolerância física encontra-se já n’O Avestruz Lírico, em passos tão repetidos como aquele que começa: «Podem pedir-me, em vão, / Poemas sociais…» É um vínculo de progenitura; no entanto, o tempo, longe de o sacrificar ao panorama de vistas novas, deu-lhe uma força quase incontrolável, insinuando na marcha do relógio solar um ponteiro de pedra. O tumulto das incontinências vocabulares, na obra mais recente de António Manuel Couto Viana, gera um poema como um cristal anavalhado, dolorosamente fiel ao desejo de «Febris sentinelas que guardam as rotas / Das veias do barco mais frágil e vil, / Supondo as vitórias detrás das derrotas».

O automatismo é o modo natural com que se exibem os contornos de uma poesia de tipo vulcânico; mas, na acumulação de palavras que o denunciam, podem apontar-se alguns vocabulários tidos como chave: ódio, cio, paz, cobardia, lençol, diviso, extermínio, lâmpada, furor, insulto, repulsa, pudor, sarcasmo, golpe, forma, sexo, escarro, gula, ninho, disfarce, cama, fome, desejo, muro. Deve dizer-se que a exposição desta variedade objectiva de palavras afins, tal como aparece em Relatório Secreto, não existe ela própria numa configuração de simples isolamento. De modo nenhum. A poesia de Couto Viana, dobrada embora às solicitações deste abraço existencial, não cai na monotonia do peso-morto: assim como existe «o quarto de aluguer» ou existem «lumes, lixos, espadas», também existe «Bizâncio» ou «a baixa de Lisboa / Provocadora como um laço» ou o «astral jardim do poeta» ou o «pólen d’ oiro de tranças de menina» em «fina manhã conventual».

A participação de semelhantes revelações de quantidade objectiva decorre de forma mutuamente diversa. Em geral, a tonalidade é de ironia, o verso esconde-se na internacional sagração do almanaque de oferendas diárias; e daí «um cão de luxo / Que faz pipi, como um repuxo, / Sobre um dos pratos da balança», imagem de habituação que por outras vias é retomada em poemas como «As Rapinas Rapaces» (com acento de aparente gravidade) ou «Apetite Nefelibata». Todavia, se não vigora neste lado da poesia de Couto Viana pouco mais do que a expressão de um mostruário trivial, outro lado nos trará sempre a imagem de um motivo de crença: crença física, idealista, violenta; e assim temos o poema «Alvor» ou a disponibilidade temperamental do poeta que escreve «Milagrosa Manhã»:

Eis o momento de quebrar

Os meus soluços contra mim!

Quando chegar, cheguei ao fim.

Não tenho mais que revelar.

 

O poeta demorara quinze anos neste percurso. De começo, era uma ironia desconcertante, em vestimenta de cousa de folgar, que parecia orientá-lo; depois, com o correr do tempo, Couto Viana explorou essa ironia até ao sarcasmo:

E enquanto, enfim, levam os ossos

Para o açúcar necessário,

Acenderei o lampadário

E rezarei uns «padres-nossos».

E a coberto do passado,

Com mão de luva penetrante,

Apalparei o viandante

Que vá vender-se no mercado.

Talvez que traga, no casaco,

Uma escondida flor de esperança;

Ou o perfil dessa criança

Que outrora fui, dentro de um saco.

 

Mas é bem certo que manteve intacto o poder de concentração epigramática, a graça e a frescura dos versos de «O Calcanhar de Pasárgada», sabiamente temperadas por um esoterismo superficial, adequado aos novos horizontes de culto:

Talvez! (No íntimo oratório,

Enquanto amor se não deprave,

A Deus pertence a obscura chave

Deste secreto relatório.)

 

Se houve um alargamento de motivos, de ritmos e de experiências formais, não pode dizer-se que a ele tenha correspondido alguma solução de continuidade. E o que impressiona na obra do poeta é justamente a perfeita unidade de todos os livros, como se entre as primeiras e as mais recentes composições mediasse apenas uma pequena fracção do mesmo tempo físico. Mancha Solar e Relatório Secreto, por exemplo, são livros acabados, produtos de uma depuração que por certo não se desenha tão nitidamente nos volumes iniciais; porém, se pusermos de lado a circunstância de possuírem maior economia de linguagem e porventura maior riqueza plástica, não acharemos neles muitas novidades. A maneira de dizer era nova, mas a raiz não se alterara.

Poucos poetas contemporâneos poderão orgulhar-se de semelhante unidade. Tendo começado por publicar um livro já adulto, António Manuel Couto Viana atinge a maturidade literária com os instrumentos que lhe tinham servido em 1948 para chegar onde justamente chegou. Só a administração de uma sábia disciplina cultural lho teria permitido. E essa capacidade de selecção, essa coragem não isenta de amor, nunca lhe faltaram.

A este respeito, são perfeitamente actuais as considerações formuladas em 1959 por Maria Alberta Meneres e E. M. de Melo e Castro, na introdução à Antologia da Novíssima Poesia Portuguesa, livro complementar do florilégio organizado por Jorge de Sena e que abrange a produção poética dos anos mais recentes: «António Manuel Couto Viana aparece-nos como um precursor e como agente de reunião de entusiasmos, sendo um mestre de estilo e de amor pela Poesia. Deste modo, a sua poesia teve particular importância na formação de todo um conjunto de poetas, para os quais sem estética não pode haver vida, pois ambas se implicam mutuamente. A poesia de António Manuel Couto Viana ergue-se isolada, quer como continuadora, até à exaustão, de correntes formais anteriores, quer como precursora de toda a poesia de 1950. Assim, pode parecer excessivamente fechada sobre si própria e desumanizada, atenta apenas à sua defesa e justificação. Mas mesmo essa atitude define já os termos de um novo entendimento humano dos poetas com a sociedade, e contribui para que o isolamento e a situação pouco confortável do poeta, por volta de 1948, ganhem uma humaníssima justificação. A poesia de Couto Viana é a realização de um compromisso entre o Belo e as condições circunstanciais da existência, compromisso esse que constitui a garantia da sobrevivência do poeta, como poeta e como homem, simultaneamente em dois mundos diferentes».

Poeta parnasiano? Simbolista pela genealogia musical? Moderno pela apreensão de uma linguagem que reconduz a sua própria época cultural? Se tivermos em conta a total liberdade de movimentos em que foi escrevendo a sua obra, à margem de qualquer bandeira exclusiva, e a maturidade extrema que o define lapidarmente como poeta, mais apropriado será qualificá-lo de «clássico». E isto porque, na síntese pertinente de T. S. Eliot, «se existe uma palavra na qual possamos fundamentar-nos para sugerir o máximo do que entendemos pela expressão um clássico, essa palavra é maturidade».

Durante um quarto de século – lapso de tempo que decorre entre a publicação d’O Avestruz Lírico (1948) e de Raiz da Lágrima (1973) –, a poesia de António Manuel Couto Viana foi invariavelmente fiel ao lirismo. Em estudos que publicaram David Mourão-Ferreira, Tomaz de Figueiredo, Eduíno de Jesus e Rodrigo Emílio, bem como nas notas críticas de João Gaspar Simões ou nas que eu próprio dei a lume a propósito de Mancha Solar (1959), A Rosa Sibilina (1960) e Relatório Secreto (1963), há uma espécie de unanimidade no entendimento do discurso poético de Couto Viana como expressão de subjectividade sentimental quanto ao fundo e de intenso aproveitamento das virtualidades conotativas da linguagem, dos seus elementos de prosódia, quanto à forma. Lirismo nunca gratuito, diga-se em abono da verdade, pois o poeta, tendo surgido adulto logo no seu primeiro livro (caso raro na literatura portuguesa contemporânea), soube sempre evitar a banalidade e o lugar-comum, para o que explorou em toda a linha, com um admirável domínio da métrica tradicional, a vertente polémica e sarcástica de um intimismo em conflito com o tempo histórico que lhe era dado viver e em choque com as linhas de força mitológicas já então esboçadas à sua volta.

Voz inconformada com a «cisão na Casa de Portugal» (a expressão foi usada algures por Álvaro Ribeiro), não a seduziam nem as maiorias desmioladas nem os quixotes em busca do martírio, antes, com pudor e tenacidade, dava periodicamente o seu recado de «paz sem sentido», o qual não era senão aviso e presságio de um latente apodrecimento. Nunca por nunca acomodado (e isto me leva a discordar da interpretação da poesia de António Manuel Couto Viana em termos de aurea mediocritas horaciana, como sustentavam alguns críticos), o lirismo do principal animador da Távola Redonda e do Graal podia denotar, a um exame superficial, certas marcas de conservadorismo, que aliás se explicavam pelo êxito social da ideologia pacificadora do «viver habitualmente»; mas, numa leitura mais exigente da estrutura profunda do discurso poético de Couto Viana, avultavam sobretudo os traços heterodoxos da incompatibilidade com o real fragmentado e lodoso; daí uma auto-ironia devastadora e o apelo nostálgico (de acentos sabáticos) à memória do Uno indivisível:

E eu, preso incomunicável,

Comunico à minha estrela

Que ainda vejo, desta cela,

No solene céu estável:

Pátria minha – mar além…

Alegre, heróica, viril.

Eis a rosa juvenil

Ao colo de sua mãe.

Tenha a Pomba, em ti, a Igreja

Pela quinta rotação,

Dividindo o vinho e o pão

Por todos nós.

Assim seja!

 

Como era inevitável, a poesia de António Manuel Couto Viana sofreu, depois de 1974, uma rotação completa. Assumindo corajosamente o papel fulcral que os novos tempos exigiam, o poeta atenuou os efeitos conotativos do discurso lírico, para se empenhar a fundo na epicidade referencial e denotativa: dessa mudança são testemunho os livros Nado Nada (1977) e Ponto de Não Regresso (1982). Viragem enriquecedora para a literatura de língua portuguesa, ela veio revelar-nos um grande poeta épico, a tal ponto envolvido na realidade histórica dos últimos anos que chega a parecer impossível retransmiti-la sem lançar mão do vasto fresco «documental» em que se transformou a poesia de Couto Viana.

Nas luminosas (e hoje esquecidas) Variações sobre o Espírito Épico, ensinou Fidelino de Figueiredo que, «em sua hora própria, a epopeia faz as vezes da historiografia inexistente». Isso nos reconduz à ideia de que a linguagem épica tem sempre um carácter de apresentação (ela «aponta alguma coisa, mostra-a», sublinha Emil Staiger nos Conceitos Fundamentais da Poética), razão por que Schiller pôde formular a lei segundo a qual «a autonomia das partes é uma das características principais da poesia épica». Ao contrário do lirismo, onde os elementos do discurso reclamam uma visão global do conjunto (uma estrofe, um poema, um ciclo de poemas), na epopeia há unidades objectivas de cada elemento e, necessariamente, unidade de significação. Assim, um simples verso isolado, como aquele que diz, no início de Nado Nada, «acabou-se o tempo da sombra modesta», pode ser lido em termos de autêntica unidade semântica: basta, para tal, confrontá-lo com a realidade histórica. Por um lado, fechado o parênteses de cinco séculos onde julgava poder continuar a viver como poeta essencialmente lírico, o autor sente que, do ponto de vista da expressão poética da sua obra, tudo vai agora mudar; por outro lado, transparece no verso citado a dor incontida da própria mudança histórica, que Franco Nogueira identifica com «o drama do desmantelamento da terra portuguesa, a crise nos alicerces da nacionalidade, a ruína a invadir o cerne das traves-mestras». Chegado a esse «ponto de não regresso», ao poeta cumpre-lhe denunciar a nova Babilónia, talvez mais do que chorar Sião:

Hoje, o presente

É ainda mais vil e apagado e triste

Porque, no mar em frente,

Nenhum futuro existe.

 

A dimensão épica deste segundo ciclo da poesia de António Manuel Couto Viana nada tem a ver com o conceito clássico de epopeia: nem o assunto é sublime, nem a matéria histórica se perde na noite dos tempos, nem há protagonistas com estofo de heróis, nem façanhas movimentadas, nem estímulos sobrenaturais. A epicidade está, pura e simplesmente, como propunha Hegel, na «imagem do espírito nacional, tal como se manifesta na moral da vida familiar, na guerra e na paz, nas necessidades, nas artes, usos e interesses, enfim uma imagem completa da fase em que se encontra à consciência e a sua qualidade». Ora, poucas obras portuguesas contemporâneas estarão tão impregnadas dessa consciência do espírito nacional, e é muito sintomático que o poeta tenha centrado o drama da sobrevivência de Portugal em torno dos pilares míticos do passado, por comparação ou por símile: assim Camões («Coroa, bandeira, brasão e lema, / O vasto Império do coração, / Vou encontrá-los no teu poema: / Na pátria, não!»), assim Cristo («Ladeiam-no ladrões, o escárnio da escória / E um bando de soldados / Que lhe perdeu aos dados / Cinco séculos de História»), assim o Desejado («E perde-se a nação… se houver nação»), assim o Condestável («Tu chamas ao combate / Contra a morte que é, pela vida que foi»), assim o Restaurador («Vem expulsar de nós a névoa do presente / E acorda Portugal!»). No último poema do livro, Couto Viana fornece mesmo a chave da epicidade que por completo o domina:

Dei sinais, dei avisos, dei memória

Não só de mim.

Poesia transitória?

Quem o disse morreu antes de ver-lhe o fim.

 

O poeta morreu (em 8 de Junho de 2010) antes de ver o fim da narrativa que outros escreveram por linhas tortas e nos conduziu à “apagada e vil tristeza” dos dias de hoje. Mas o seu testemunho não poderia ter sido mais eloquente e mais exacto.

 

Nota:
As obras citadas no texto encontram-se reunidas nos dois volumes editados pela Imprensa Nacional/Casa da Moeda, em 2004, com o título António Manuel Couto Viana – 60 Anos de Poesia (1943 – 2003).

 

Publicado na LIMIANA – Revista de Informação, Cultura e Turismo n.º 25, de Dezembro de 2011

 

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

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