D. Henrique e D. Teresa na Correlhã

 

D. Henrique e D. Teresa na Correlhã




Amândio de Sousa Vieira



Sabemos pelos castros que, antes da chegada dos Romanos, já a Correlhã era povoada. Com a conquista e submissão dos povos castrejos, os invasores acabaram por dar identidade a esta terra, de tal modo que o nome que ostenta derivará de um importante romano que aqui se terá fixado, Cornelius. A sua vasta propriedade terá sido a famosa Villa Corneliana.

Os romanos continuaram por aqui, até que foram chegando outros povos e uma nova religião entretanto surgiu. O Rei Visigodo Recaredo I (586/ 601) conquistou estas terras e as terá convertido à fé católica; segundo Pinho Leal (in Portugal Antigo e Moderno, pág. 388, 1873), "aqui tomou assento por algum tempo". Em 1865, apareceu nas veigas uma moeda de ouro do tempo do rei visigodo Recaredo I, do ano de 589, com um valor histórico incalculável. Infelizmente desapareceu, ficando quase por milagre um desenho da mesma, no Minho Pittoresco, que nos permite saber como era exatamente.

Por volta do ano setecentos, chegaram os mouros e, se vestígios não temos, ficou a lenda do Monte da Nó: o senhor destas terras, o governador mouro Abakir, perdeu-se de amores por uma bela pastora correlhanense e o seu romantismo originou um doloroso sortilégio, que dura e durará… até ao dia em que um grande amor liberte a formosa pastora!

Sabem os historiadores, porque ficou escrito, que, entre o ano de 910 e 914, a Correlhã foi conquistada aos Mouros, primeiro por D. Afonso III, rei das Astúrias, e depois consolidada essa conquista por D. Ordonho II, seu filho. É este rei que vai dar a Correlhã a Santiago de Compostela no ano de 915, como pagamento das 500 moedas de ouro deixadas em testamento a Santiago por seu pai e que não tinham sido entregues.

Passaram alguns anos, com incursões normandas e outras a devastar estas férteis terras, até que D. Fernando I, Rei de Leão e Conde de Castela, se interessa por este lugar e, juntamente com sua mulher, D. Sancha, dá à Correlhã o título de Vila, no ano de 1064.

D. Fernando I era avô paterno de D. Teresa, de quem esta terá herdado a bondade que se lhe reconhece, pois, em 1064, já este rei tentara sem sucesso proteger o povo da vila Corneliana:

"El Rei D. Fernando o primeiro, confirmou esta esmola (doação da Villa Corneliana a Santiago) no principio do seu reinado, dando grandes favores e isenções aos moradores desta terra; sendo depois informado como eram maltratados e oprimidos por algumas pessoas poderosas..." (Frei António Brandão, in Terceira Parte da Monarquia Lusitana, 1632)

Até que chegamos ao ano de 1097, que tão importante se apresenta para a Correlhã. D. Henrique e D. Teresa governavam o Condado Portucalense, que receberam como dote de casamento. Este, um valente guerreiro, teria à volta de 35 anos, jovem adolescente a princesa (os historiadores divergem quanto à sua idade, por ocasião do casamento). Havia apenas um ano de governação, decidiram fazer a romagem a Santiago:

"e nós vindo em Romaria pelo amor que temos a este Apóstolo..."

Terão sido D. Teresa e D. Henrique os primeiros peregrinos compostelanos na História dos governantes do Portugal nascente (Arlindo de Magalhães Ribeiro da Cunha, in A devoção e a peregrinação jacobeias em Portugal, pág.103), passando na Correlhã pelo mesmo caminho por onde continuam a caminhar os devotos de Santiago.

Por aqui passaram, e por certo descansaram, não deixando de ouvir os que governavam em seu nome – relevante a atenção dada ao povo da Correlhã, que então vivia um período de grande opressão. Avisados pelo Bispo de Santiago, pelas queixas que foram ouvindo e porque o problema já era antigo (D. Fernando I, em 1064, já tinha constatado as arbitrariedades aqui cometidas, que, apesar das suas ordens, não foram reparadas), decidiram então os primeiros Condes Portucalenses tomar medidas justas e eficazes, para a defesa e bem-estar dos seus súbditos da Villa Corneliana.

"por nosso mandado e lei firmíssima os moradores de Correlhã fiquem livres da pobreza  a que os reduziram os ministros do rei, impedindo-lhes a colheita da lenha, e as entradas e saídas necessárias ao pasto de seus gados, por cuja causa algumas vezes se queixaram aos príncipes da Sé Apostólica (...) damos licença, de hoje em diante, no que é nosso, a todos os moradores desta villa, para que possam cortar paus e madeiras, e tenham sua entrada livre, e escolham pastos em todo o circuito da terra, onde quer que quiserem, e não ouse ninguém, quer seja vigário, quer alcaide, ou poderoso, pôr-lhes algum impedimento..."

O documento muito impressionou Frei António Brandão que, em 1632, o classifica de "testemunho célebre de piedade". José de Sousa Amado transcreve-o na íntegra na História da Igreja Catholica" (Tomo II, 1871), escrevendo na mesma obra a sua opinião, "todo ele revela amor para com o povo da Correlhã". Na mesma linha de reconhecimento, realça os "privilégios concedidos aos habitantes da Correlhã" o grande historiador compostelano D. António Lopez e Ferreiro, na sua monumental História De La Santa A. M. Iglesia de Santiago De Compostela, (Tomo III, pág 11/12, 1900), onde copia o documento original, escrito em latim, como era uso na época.

D. Teresa e D. Henrique confirmam a decisão de D. Ordonho II, mantendo a Igreja e Villa Corneliana na alçada e proteção dos Bispos de Santiago.

Não termina aqui o interesse de D. Teresa em engrandecer a Villa Corneliana; o poderoso D. Gelmires, Bispo de Santiago, aumenta-lhe privilégios, concedendo, em 1120, carta de Foral, confirmada nesse mesmo ano por D. Teresa que, estando viúva, tem a difícil tarefa de governar sozinha. Não deixando de proteger e engrandecer esta importante região, concede, cinco anos depois, o tão celebrado foral à terra de Ponte (Ponte de Lima) onde se pode constatar a importância da Correlhã, impondo como limite à nova vila a foz do Rio Trovela, respeitando assim o território da Villa Corneliana!...

... e o mesmo termo parte pela foz do Trovela... in Foral de Ponte de Lima, 4 de Março de 1125

Ficou esta terra profundamente ligada aos primeiros Condes de Portugal, merecendo estes acontecimentos ser lembrados como marcos relevantes da História da freguesia: a passagem nesta localidade, como peregrinos, dos pais de D. Afonso Henriques e a firme atitude que tomaram na defesa do povo da Correlhã!

A representação destes factos mereceu abrir o Cortejo Histórico das Feiras Novas de 2017, dando oportunidade a milhares de pessoas de conhecerem um episódio tão importante para a Correlhã, para Ponte de Lima, para Portugal. Ao Dr. Miguel Franco,  D. Fátima Oliveira, e todos os que deram corpo, e eu diria alma, a esta representação histórica que tanto nos sensibilizou, muitos parabéns.

Por isto, e muito mais, é que a Correlhã merece inteiramente ser reconhecida como "UMA TERRA COM IDENTIDADE".

 In: Correlhã em Festa nº 13, Julho 2018, págs. 41 a 43

 

 

 

O Documento Histórico (escrito em latim) que assinala a passagem de D. Henrique e D. Teresa pela Correlhã, e que contém as medidas justas e eficazes para a defesa do bem-estar dos seus súbditos da então Villa Corneliana
Guimarães, 9 de Dezembro do ano de Cristo de 1097.
Arquivo da Catedral de Santiago de Compostela,
Tumbo A, folha 39.
A iluminura representa D. Afonso VII, Rei da Galiza, Leão e Castela, filho de D. Urraca I e D. Raimundo, sobrinho de D. Teresa.
Todos os direitos reservados - Arquivo Histórico da Catedral de Santiago de Compostela.
Imagem recolhida no desdobrável publicado pela Junta de Freguesia da Correlhã, em 30 de Junho de 2019.




Tradução (ligeiramente adaptada) extraída do livro Terceira Parte da Monarquia Lusitana, do Doutor Frei António Brandão, pág. 33, ano de 1632:

Eu, D. Henrique, Conde dos portugueses, juntamente com a minha mulher Dona Teresa, filha do imperador de Toledo, D. Afonso, e consentimento dos grandes da nossa corte; porque sob o domínio da dita Igreja se compreende toda a província de Portugal, nos pareceu oferecer ao Santo Apóstolo esta dádiva e escritura de testamento, para que por nosso mandado e lei firmíssima os moradores da Vila Corneliana fiquem livres da pobreza a que os reduziam os ministros do rei, impedindo-lhes a colheita da lenha, e as entradas e saídas necessárias ao pasto dos seus gados, por cuja causa algumas vezes se queixaram aos príncipes da Sé Apostólica. E nós vindo em romaria, pelo amor que temos a este Apóstolo, achamos (movidos de suas petições) que a sobredita vila Corneliana e a metade do Monte mór, ou Nahor, nos seus limites antigos, foram concedidos pelos primeiros reis a este lugar sagrado. E isto mesmo confirmamos inteiramente, assim pela devoção ao Santo, como pela consideração que temos ao seu clero. E porque para a parte das vilas reais e castelos de nosso senhorio e mais bosques e matas, damos licença, de hoje em diante, no que é nosso, a todos os moradores desta vila, para que possam cortar paus e madeiras, e tenham sua entrada livre, e escolham pastos em todo o circuito da terra, onde quer que quiserem e não ouse ninguém, quer vigário, quer alcaide, ou poderoso, pôr-lhes algum impedimento para que conforme a licença que lhe damos, assim também nós por intercessão do Santo Apóstolo mereçamos alcançar no dia de juízo a entrada no reino do céu, em companhia dos mais santos. Amém. Foi feita a confirmação da presente escritura a nove de Dezembro, na Era de 1135 (ano de 1097) Henrique Conde e sua mulher Dona Teresa.

Os que estavam aqui de Portugal. Soeiro Nunes confirma. Nuno Pais confirma. Paio Guterres confirma. Rodrigo Forjas confirma. Pedro Songemires confirma. Sueiro Mendes confirma. Paio Olides confirma. Vermuy Guterres confirma. Pedro Aluares confirma. Paio Godestes Juiz confirma. Pedro Daniel Juiz confirma.

 

 

Nota do Editor

Numa iniciativa inédita em Ponte de Lima, a Junta de Freguesia da Correlhã, na presidência de Fátima Oliveira, proporcionou a todos os correlhanenses e amigos desta antiga Vila Corneliana cópia deste relevante documento histórico e da sua tradução.

Obtida junto do Arquivo Histórico da Catedral de Santiago de Compostela, graças ao empenho de Amândio de Sousa Vieira e de Manuel da Fonte Rodrigues Alves, a cópia do documento foi colocada à disposição dos correlhanenses, num desdobrável de quatro páginas, nas comemorações do Dia da Correlhã de 2019, que tiveram lugar no dia 30 de Junho.

José Pereira Fernandes

 

Documento colocado à disposição dos correlhanenses:

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

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