Domingos Fernandes

 

Domingos Fernandes


Industrial de motonáutica e de mobiliário em fibra de vidro, no Brasil

 



José Pereira Fernandes



Na década de cinquenta do século XX, Portugal era um país dominado por uma economia obsoleta, profundamente enraizada no mundo rural, em contraste com a tendência crescente de industrialização e modernização da economia europeia.

O estado em que Portugal se encontrava resultava não só das crises económicas mundiais da primeira metade do século XX, que afectaram especialmente o Mundo Ocidental, mas também – e principalmente – de uma política irrealista seguida e assumida pelo Primeiro Ministro António de Oliveira Salazar, cuja estratégia de desenvolvimento económico assentava essencialmente na agricultura, contrariamente à opinião de figuras da época que defendiam um modelo de desenvolvimento em que a indústria tivesse um papel mais forte no desenvolvimento da economia portuguesa.

Respondendo aos defensores desse modelo de desenvolvimento, afirmava Salazar em 1953, no discurso da apresentação do plano de fomento:

 “Sabe-se que a indústria tem rendibilidade superior à agricultura e que só pela industrialização se pode decisivamente elevar o nível de vida. Temos, por outro lado, que a agricultura, pela sua maior estabilidade, pelo seu enraizamento natural no solo e mais estreitas ligações com a produção de alimentos, constitui a garantia por excelência da própria vida e, devido à formação que imprime nas almas, manancial inesgotável de forças de resistência social. Aqueles que não se deixam obcecar pela miragem do enriquecimento indefinido, mas aspiram acima de tudo a uma vida que, embora modesta, seja suficientemente sã, presa à terra, não poderiam nunca, e muito menos nas precaríssimas condições da vida mundial, seguir por caminhos em que a agricultura cedesse à indústria e em que o solo e a gente não fossem estimulados a produzir o máximo possível”.

Contrariando a apologia de uma "vida modesta" e "presa à terra" apregoada por Salazar, a população dos campos, especialmente do Norte de Portugal, onde predominava o minifúndio e uma economia de subsistência, procurava escapar às condições de atraso em que vivia, emigrando para o estrangeiro, em busca de melhores condições de trabalho e de vida.

Verificou-se então, segundo dados estatísticos oficiais, uma vaga de emigração sempre em crescendo a partir do início da década de cinquenta para países do continente americano, especialmente para o Brasil, indicando os números oficiais cerca de 20.000 emigrantes em 1950; 30.000 em 1951; quase 50.000 em 1952; uma média de 30.000 de 1953 a 1963; e 55.000 em 1964.

Entre os 30.000 emigrantes do ano de 1955 está Domingos Fernandes, nascido em 6 de Novembro de 1927 na freguesia de Fornelos, concelho de Ponte de Lima, que nesse ano rumou ao Brasil em busca de melhores condições de trabalho e de vida, fixando-se na cidade de São Paulo, para onde já havia emigrado o seu irmão mais velho, José Fernandes, que o apoiou na fase inicial desta aventura por Terras de Vera Cruz.

Dotado de um invulgar talento nato na arte da carpintaria e da marcenaria, que deixou marcas em Ponte de Lima e noutras terras vizinhas, Domingos Fernandes levou na sua bagagem de porão uma bem apetrechada caixa de ferramentas que viria a tornar-se essencial na fase inicial da sua actividade no Brasil, na área da construção civil, onde cedo se tornou conhecido por encontrar soluções para situações difíceis, com destaque para a construção de clarabóias, de sistemas de arejamento de edifícios e de estruturas de suporte da cobertura de grandes edifícios, de que é exemplo a Igreja Matriz da cidade de Três Fronteiras, localizada no interior do Estado de São Paulo.

Paralelamente, e durante os primeiros cinco anos de permanência no Brasil, Domingos Fernandes foi impondo também a sua arte no fabrico de mobiliário, de meios de transporte de tracção animal e dos mais variados utensílios em madeira, especialmente apreciados pela sua criatividade.

No início do ano de 1960, este artista limiano foi convidado para trabalhar com o seu amigo Jorge Añel, um conceituado argentino construtor de veleiros na cidade de São Paulo, e, mais tarde, pela família Verdier, de nacionalidade francesa, que se dedicava à construção de embarcações de pesca na vizinha cidade de Santos, importante porto de mar do Estado de São Paulo.

A experiência adquirida neste sector levou Domingos Fernandes a criar, pouco tempo depois, o seu próprio estaleiro junto à Represa de Guarapiranga, em São Paulo, impondo-se rapidamente como construtor de vários tipos de embarcações, a partir de plantas oriundas de Itália, inicialmente em madeira e, a partir de 1974, em fibra de vidro. Nas embarcações por si construídas destacavam-se barcos de recreio, catamarãs e barcos de corrida, que venceram grande número das provas desportivas em que participaram.

Entre os seus principais clientes contavam-se conhecidas figuras do Brasil, como políticos, governadores, médicos e empresários, onde se incluía o seu cardiologista, Dr. Luiz António Rivetti, e Abílio Diniz, um dos maiores empresários do Brasil, fundador do Grupo Pão de Açúcar com o seu pai, Valentim Diniz, também emigrante português.

Apaixonado pela motonáutica e outros desportos, Abílio Diniz convidava frequentemente Domingos Fernandes, de quem se tornara grande amigo, a dar-lhe apoio nas competições desportivas em que participava, tendo obtido várias vezes o primeiro lugar ao leme de barcos de corrida construídos por este talentoso limiano.

Com o advento da crise económica no país, Domingos Fernandes teve a lucidez de reconverter a sua unidade industrial, passando a fabricar todo o tipo de mobiliário em fibra de vidro a partir de moldes criados por si próprio, o que tornava as suas peças únicas no mercado, premiadas em diversas exposições.

Para além de mobiliário de uso doméstico, Domingos Fernandes especializou-se no fabrico de todo o tipo de mobiliário para esplanadas, piscinas e estádios de futebol, tendo sido galardoado com o prémio do melhor produtor de móveis em fibra de vidro do Brasil. Entre os seus principais clientes contavam-se a Prefeitura de São Paulo, instituições e outros serviços públicos, para além de diversas entidades privadas.

Domingos Fernandes faleceu em 13 de Junho de 2004, com 76 anos de idade, depois de ter voltado uma só vez a Portugal, em 1984, para se reconciliar com o mundo que deixara para trás em 1955. Encontra-se sepultado em São Paulo, cidade que o acolheu e lhe abriu outros horizontes.

  

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

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