Contos Baldios, de Cláudio Lima, por José Cândido Oliveira Martins

 

Contos Baldios, de Cláudio Lima, por José Cândido Oliveira Martins



José Cândido de Oliveira Martins



 

Notas da apresentação pública na Biblioteca Municipal de Ponte Lima, a 22 Junho de 2007

 

1. Cláudio Lima é um autor da nossa terra limiana – nascido em Calvelo –, com provas dadas em vários géneros literários (poesia, conto, crónica, diário, crítica, etc.).

Por isso, dispensa outras apresentações. Com cerca de uma dúzia de obras publicadas, não precisa de apresentações formais; nem de grandes considerações encomiásticas, recheadas de adjectivos retóricos.

Merece, isso sim, ser saudado por mais este livro; e que neste momento se faça uma apreciação leve do novo livro, que seja convidativa à sua leitura.

 

2. O livro Contos Baldios (Guimarães, Opera Omnia, 2007) é um apelativo livro de bolso, um apreciável conjunto de oito contos, ou narrativas breves (“short stories”). Algumas destas histórias já as conhecíamos; outras são inéditas; e o conjunto é harmoniso e cativante. O livro lê-se gostosa-mente, com entusiasmo e sem sombra de cansaço.

O título é bem escolhido: retirado do mais conhecido poema de F. Sá de Miranda (“Écloga Basto”, citada em epígrafe), é uma forma de irmanar estas oito narrativas e de as enraizar numa tradição cultural e memorialística que é de todos nós. Estes Contos Baldios falam-nos de uma vida comum de outras eras, que pertencem à memória afectiva de tantos de nós; metaforicamente, podem ser lidos como terrenos maninhos, sem cultivo, agrestes, sem dono.

E não falta sequer um certo espírito crítico, inspirada no poeta que também olhava nostalgicamente para um Portugal antigo, um mundo anterior à decadência dos costumes que Sá de Miranda  denunciava na vida cortesã e citadina. Daí que, ontem como hoje, se contraponha a autenticidade e liberdade da vida rústica e do mundo campestre (aurea mediocritas) a uma cidade atípica, impessoal e sem raízes.

 

3. Este livro de Cláudio Lima pode também ler-se como uma evocação nostálgica de uma outra época – do tempo da nossa infância; de um Portugal mais rural e menos urbanizado; de um mundo de outras eras (com suas tradições, figuras típicas, superstições), que todos evocámos com afectividade, em sedutoras cores de sépia (veja-se a fotografia da capa). É essa a convidativa atmosfera que enforma estas oito narrativas.

Nesse sentido também, quer na atmosfera recriada, quer no estilo utilizado, estes Contos Baldios entroncam numa rica tradição literária: a nível local, lembrámo-nos das narrativas do Conde d’Aurora ou de Delfim Guimarães (Ares do Minho); a um outro nível, das narrativas de Trindade Coelho (Os Meus Amores); de Aquilino Ribeiro (O Malhadinhas); ou de Miguel Torga (de Os Bichos aos Contos da Montanha). Há leituras, filiações e afinidades mais ou menos inconscientes que se pressentem e respiram nestas páginas.

 

4. Neste livro, Cláudio Lima regressa a um género que já cultivou antes e em que a sua pena já amadureceu. Sabe muito bem que o conto é um género difícil, com suas regras próprias e exigentes: narrativa breve, de intriga concisa, sem derivações desnecessárias; desenho intuitivo de personagens bem delineadas, sem descrições supérfluas ou hesitações; estilo substantivo e escorreito, frase segura, correcta e de sintaxe límpida, sem adiposidades; desenlace rápido e surpreendente; sábia exploração da situação cómica (na linguagem usada ou na cena recreada), bem como da ironia oportuna e inteligente, sem virtuosismos estéreis, nem chalaças grosseiras.

Primando pelo equilíbrio e destreza na adequação de forma e conteúdo, estes contos têm todos os ingredientes referidos. O autor Contos Baldios assimilou a técnica narrativa e o estilo na leitura dos mestres do séc. XIX; bebeu-os em muitas histórias ouvidas; e enriqueceu-os depois com a sua veia criativa e experiência de vida.

 

5. Por tudo isto, estes cativantes Contos Baldios são oito quadros muito realistas, que nos evocam tempos de outrora. São histórias palpitantes de vida, de pessoas e episódios muito semelhantes a tantos outros que testemunhámos ou de que ouvimos falar.

Contos Baldios são flagrantes da aldeia minhota, onde o homem e a terra se pintam com cores genuínas: a alma destas gentes; a sua ligação profunda ao torrão natal; a linguagem viva e castiça; a ancestral sabedoria de vida; a centralidade da vida religiosa; captação dos valores de um imaginário; um certo apelo pagão, etc. – tudo conflui nestes contos de Cláudio Lima, com uma identidade e idiossincrasia de matriz popular.

Em suma, a leitura desta prosa escorreita e sedutora é uma lufada de ar fresco, sobretudo num tempo de experimentalismos, obscurantismos e outros ismos mais ou menos infecundos e snobs; é saboroso ler esta prosa num tempo de desorientação estética e, sobretudo, de promoção de muito lixo pretensamente literário, porque apregoado por poderosos meios de comunicação social.

 

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

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