A Capela do Divino Espírito Santo, por Gracinda Dantas

 

A Capela do Divino Espírito Santo, por Gracinda Dantas

Localização: Moreira do Lima
Classificada como Imóvel de Interesse Público, em 1961

 



Gracinda Dantas



Seja qual for o sentido que se tome na rua do Espírito Santo, a partir da portela de Santo Ovídio ou do entroncamento com as ruas de Parada e de Ferneandes, no lugar do Couto, volvida uma curva, inesperadamente, emerge a capela do Espírito Santo.

O solo é ainda muito acidentado. Algumas das pequenas unidades familiares que a rodeiam parecem penduradas na Serra de Antelas. No entanto, a capela dispõe de um amplo adro muito beneficiado pela construção do muro de suporte. O Couto é também um espaço de grandes propriedades como a quinta da Boavista que, fazendo jus ao nome, está situada em lugar altaneiro e a do Espírito Santo, em frente à capela. Nos limites espraia-se a quinta da Carcaveira pertencente à freguesia de Sá.

A capela do Espírito Santo é um templo que agarra interesses diversificados. Suscita o mistério histórico, por faltas de fontes escritas conhecidas, expõe múltiplos retalhos de histórias na iconografia da sua escultura, sobretudo dos modilhões, tem um interior rico e ainda um espaço exterior belo e repousante. Para os moreirenses é o ex-libris da freguesia.

Vários autores atribuíram a sua construção à Ordem dos Templários, criada em 1118 e extinta em1311. Foi substituída, em Portugal, pela Ordem de Cristo que recebeu o seu património. Estes monges guerreiros, movidos pelo espírito de cruzada, tiveram como objectivo primordial a protecção dos peregrinos que se deslocavam à Terra Santa. O seu raio de acção foi alargado pela necessidade geral de combater o infiel e pela assunção de cruzada contra os mouros na Península Ibérica. Em território portucalense receberam as primeiras doações pelas mãos de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques, em 1126 e em 1127. Foram senhores de vastos territórios, situados, mormente, em áreas recentemente reconquistadas onde era necessário defender e povoar. Este não era o caso da região entre o Minho e o Lima, no século XII. Aqui estabeleceram-se várias ordens religiosas como os Beneditinos, os Cistercienses, os Franciscanos, os Dominicanos e os Cónegos Regrantes de Santo Agostinho.

A relação entre a construção da capela do Espírito Santo e a Ordem dos Templários/Cristo parece ter tido origem em Carvalho da Costa ao registar que a abadia de S. Julião de Moreira esteve dividida, entre o abade e uma comenda da Ordem Cristo da qual foi titular D. Pedro de Sousa, que foi capitão de Ormuz. Posteriormente, repetiu-se. A existência de uma comenda da Ordem de Cristo, a cruz pátea sobre a empena absidal, ou a promoção do culto do Espírito Santo são indícios que nos merecem reflexão, pistas de investigação a perseguir. Seria muito interessante confirmar-se a existência de uma unidade conventual da Ordem do Templo/Cristo em Moreira ou a relação entre um dos seus membros e a construção da capela.

Um outro aspecto discutível sobre esta capela prende-se com o facto de ter sido considerada matriz de muitas terras depois integradas noutras freguesias. O Tombo de 1795 registou que a tradição a considerava como primeira matriz.

Com base nos relatos das Inquirições de 1258, infere-se que a paróquia de S. Julião de Moreira já existia nesta data e que ocupava uma área muito próxima da actual. Efectivamente, o rei tinha direitos vinculados a propriedades dispersas por Canadelo, Felgueiras, Redimões e em vários lugares da parte mais baixa da freguesia. Foram inquiridas todas as paróquias confinantes, com excepção da Cabração, e não se identifica, entre os relatos, qualquer outra que possa ser enquadrada neste espaço. A situação mantém-se até finais do século XVI, segundo documentação apresentada por Avelino de Jesus Costa. No Tombo de 1551 registou-se que a capela do Espírito Santo era pertença da paróquia e o seu adro sufragâneo da igreja.

A questão de ter sido a capela do Espírito Santo matriz de muitas terras ou da paróquia de S. Julião avoca a data da sua construção sobre a qual não há entendimento. Aguiar Barreiros situa-a no século XII, Ferreira de Almeida na primeira metade do século XV com base na inscrição da frontaria e considera-a capela gótica e os seus cachorros de bustos típicos dos fins da Idade Média. Lourenço Alves, Gerhard Graf e Jorge Rodrigues aproximam-se ao defenderem obras de remodelação que foram alterando a fisionomia da capela primitiva. Estas leituras divergentes podem não ser contraditórias, como evidenciou o autor da Nota Histórico-Artística no sítio do IGESPAR, aceitando-se a existência de uma construção dos finais do século XII, com base nas características de alguns cachorros, e a remodelação posterior dos portais.

A confirmar-se a existência de uma capela anterior da qual não existem vestígios conhecidos ou a alteração das suas características primitivas, através de remodelações que a situam numa época mais tardia, a capela do Espírito Santo pode ter sido igreja paroquial de uma área alargada que englobava terras actualmente integradas noutras freguesias. No volver dos tempos, foram surgindo novas comunidades que sagraram os seus espaços e adquiriram autonomia religiosa em relação à igreja mãe. Entre elas pode estar a paróquia de S. Julião e outras confinantes, documentadas nas Inquirições de 1258.

Entre os bens pertencentes à Igreja de S. Julião de Moreira do Lima, referidos no Tombo de 1551, figura esta capela. Sobre ela registou-se: “Item uma ermida do Espírito Santo que é muito boa casa bem feita de esquadria limpa e bom altar o maior tem pintado na parede a imagem do Espírito Santo e tem dois altares de dentro muito bem feitos”.

Em Junho de 1678, segundo nota de 1760, assinada por Pedro Pereira de Matos, foi fundada a Irmandade do Divino Espírito Santo. Ainda se conserva um Livro Misto com registos dos finais do século XVII que, embora muito degradado, testemunha a sua existência. Foi esta associação que assumiu as obras de conservação e remodelação do templo, do adro e da fábrica, pelo menos, até 1917.

A capela é de planta longitudinal constituída por uma só nave e capela-mor quadrangular. Não se conhecem alterações a este traçado a não ser a que diz respeito à construção da sacristia, adossada pelo lado norte. As empenas estão rematadas com três cruzes. Na da cabeceira emerge o Agnus Dei e na ábside uma cruz pátea considerada original.

Nos finais da década de setenta do século XVII, beneficiou de obras de conservação. Entre outras, procedeu-se ao conserto do telhado, reboco geral e reparação das pinturas. O facto de ter sido despendida uma verba com o “pintor das pinturas da capela” deixa em aberto a possibilidade de, à data, subsistir o altar referido no Tombo de 1551 e de existirem outras pinturas não aludidas no mesmo documento e de que não há registo conhecido.

Apesar de a Irmandade ter procedido a várias obras de conservação, a gestão de 1679/1680 iniciou um processo de remodelação interior que compreendeu:

– A alteração ou substituição dos altares. Efectivamente, nas contas apresentadas em 1680, aparece uma verba de 1300 réis para “a obra de pedra para os altares” e, na do ano seguinte, uma de 650 para a pedra de ara.

– A colocação do retábulo. Desconhece-se o nome do entalhador e o custo total. Nas contas apresentadas em 1684, foram apresentadas duas despesas para este fim: 47600 réis para o retábulo e 600 para o seu transporte. A data de 1688, nele assinalada, deve reportar-se aos acabamentos, uma vez que nas contas apresentadas em 1689 se inscreveu a verba de 73000 réis para o dourador do retábulo.

– A construção dos armários que custaram 1300 réis, presumivelmente, os armários que ladeavam o altar-mor transferidos para a sacristia.

– O encerramento da fresta da cabeceira, obra no valor de 100 réis (Contas de 1689).

Momento especial da vida da Irmandade do Espírito Santo viveu-se a 2 de Junho de 1689. Mereceu a redacção de um termo que refere ter sido concluído o arco da capela-mor, que foi elevada dois palmos, e decidido fazer a sacristia, elevando mais um palmo a capela-mor com seus “tabolanzos e cruz”. A obra foi entregue ao mestre Manuel Rodrigues, da Freguesia de Sá. Se conjugarmos esta deliberação com as obras de restauro realizadas nos finais da década de setenta, afasta-se a hipótese avançada pela Grande Enciclopédia do arco cruzeiro ter sido substituído por ruína do anterior. Provavelmente, o alçado existente, em particular, o do arco cruzeiro, não se compaginava com a visibilidade que a Irmandade pretendia dar aos altares por ser pequeno.

A capela-mor eleva-se um degrau em relação à nave, o altar principal assenta em supedâneo alto a que se acede por três degraus, os altares laterais estão adossados ao arco cruzeiro e têm bancadas de pedra assentes em bases niveladas com a capela-mor. Não encontrámos referências relativas à construção destes retábulos. No entanto, não serão muito posteriores ao retábulo-mor pelas semelhanças estéticas que apresentam.

Os retábulos da Capela do Espírito Santo, pela sua estruturação, segundo eixos verticais e horizontais, gerando espaços para acolher esculturas, relevos e pinturas, integram-se na estética maneirista.

O retábulo-mor é ligeiramente côncavo, constituído por um só pano rematado pelo ático. No primeiro nível, as colunas e o entablamento definem uma edícula preenchida com o relevo da Descida do Espírito Santo sobre Nossa Senhora e os Apóstolos. As colunas são coríntias, com fustes espiralados e decorados com parras e cachos de uvas, evidenciando já um certo dinamismo barroco. Assentam em pedestais prismáticos, decorados com relevos representando os evangelistas: S. Lucas e S. Marcos, do lado da Epístola, e S. João e S. Mateus do lado do Evangelho.

O ático é definido por pilastras e entablamento que enquadram o relevo da Coroação da Virgem Maria. Deixámos em aberto a possibilidade de ter sido ladeado por esculturas, à semelhança dos retábulos laterais. Com efeito, sobrepostas ao entablamento do primeiro pano e alinhadas com as colunas exteriores subsistem formas prismáticas que indiciam a função de suporte.

A talha não apresenta espaços vazios; está recamada de folhagens, formas espiraladas, laços, flores e cabeças aladas.

Os retábulos laterais são muito semelhantes entre si, quase iguais, e com o retábulo-mor. Apresentam no primeiro pano um nicho em arco de meio ponto e mísula que sustenta a imagem da invocação, Nossa Senhora do Pilar ou Santo Ovídio. Os áticos foram decorados com pinturas, eventualmente figurativas, de que não existem senão manchas cromáticas. Ladeando o ático observam-se anjos músicos com instrumentos de corda.

Não encontrámos referências à construção do coro alto. O púlpito que ficava na parede norte do corpo da capela foi construído entre 1737 e 1738 e duas partes do seu custo orçaram em 1332 réis.

Na década de 50 do século XX, António Fernandes Lima, através de notícias publicadas em vários periódicos, evidenciou o interesse artístico deste monumento e o estado de degradação em que se encontrava. A intervenção da Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais, no imediato, traduziu-se na classificação de Imóvel de Interesse Público pelo Decreto n.º 44075, de 05/12/1961. No entanto, as obras de conservação não aconteceram e na década de setenta, a ruína da frontaria era eminente. Graças à intervenção de José Pereira Lopes Leones, António Fernandes Lima e o Senhor Presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Ponte de Lima, as obras foram realizadas em 1977. António Fernandes Lima não deixou de manifestar o regozijo dos moreirenses, através de notícias publicadas nos jornais. De realçar a acção da Confraria que mobilizou verbas suas e concertou vontades, nomeadamente, no trabalho de limpeza das paredes, algum do qual feito a título gracioso.

Em 1958, os Monumentos Nacionais já reconheciam que os retábulos se encontravam em risco de perda total por estarem a ser atacados pela formiga branca. Muitos ainda recordam, de uma forma geral, o desaparecimento do dourado e das pinturas, as brechas nos relevos e talha, bem como partes estruturantes desarticuladas. O senhor José Pereira disse-nos que “era frequente proceder-se à recolha e guarda de fragmentos”. As obras do restauro do interior foram realizadas na primeira década do século XXI pelos Monumentos Nacionais.

O interior da capela do Divino Espírito Santo é harmonioso, belo e simples. Impõe-se a escultura de vulto do orago. Rigorosamente não é apenas o Espírito Santo que ela representa, mas o Mistério da Santíssima Trindade. É majestática, não pelo tamanho, mas pela interpretação, marcada pela figura papal de Deus Pai.

Quanto à imagem de Nossa Senhora do Pilar, destaca-se um pormenor bem visível no pilar que a associa à família detentora do direito de padroado da igreja: a cruz florenciada e vazia dos Pereiras. Pode tratar-se de oferta de um dos seus membros que, também, estiveram ligados à gestão da Irmandade.

A frontaria desta capela é simples. Termina em empena recta com cruz no vértice. Destaca-se o portal de arco quebrado já de influência gótica. A porta não tem tímpano. Inscreve-se numa arquivolta sem decoração, apenas cortada pelo friso saliente das impostas. É contornada por duas outras, a interior é boleada e a exterior apresenta uma canelura enriquecida com esferas. As colunas são de fuste liso, rematadas por capitéis. Três são decorados com elementos vegetalistas, folhas e enrolados, e um, o exterior do lado direito, é figurado. Apresenta duas cabeças e uma serpente, tratando-se de uma provável alusão ao pecado original. O portal é encimado por uma janela, rasgada para fora, em arco de volta perfeita

A frontaria conserva, no lado esquerdo, uma inscrição até agora não inteiramente decifrada e, no ângulo inferior direito, a data de 1678, ano da fundação da Irmandade.

Outrora, havia um alpendre que era suportado pelos quatro cachorros salientes, que ainda persistem, e pelas duas bases prismáticas que ladeiam a entrada. Na parede sul observa-se outro cachorro em posição bastante elevada que pode ter tido a mesma função. Estes espaços cobertos eram frequentes nas igrejas medievais e destinavam-se ao enterramento de leigos.

Num livro de assentos de pagamento de anuais, referente ao período entre 1821 e 1884, aparece uma nota que refere:

“1ª pedra do lado da porta principal =
Alugou Jeobal de Sá e pg – 60
1º lugr. aope da oliveira do lado desima – Manoel de S Pedro – pelo chão pg –30
1º lugr do. daporta debaixo”.

Embora se trate de um registo feito a lápis, descontextualizado, sem assinatura, ditado, talvez, pela necessidade de não deixar esquecer, presta uma informação valiosa: no século XIX faziam-se enterramentos no adro da capela do Espírito Santo, não somente de residentes na paróquia, mas, muito provavelmente, de membros da Irmandade e o preço dependia da localização. Efectivamente, a nota faz eco do aluguer de um espaço junto da porta principal pelo qual foi paga a quantia de 60 réis e de outro mais distante que custou 30 réis.

A capela do Divino Espírito Santo está adornada com uma galeria de modilhões que suscitaram e suscitam o interesse de investigadores e visitantes. Entre os eruditos que os analisaram merecem referência Aguiar Barreiros e Jorge Rodrigues. O primeiro considerou as representações esquisitas, onde alternam “monstros e os mascarões de traços enérgicos, n’uma extraordinária exibição de atitudes não raro de carnaval”. Assim, tendo a moralidade e a sátira carnavalesca como pano de fundo, identificou a maledicência na representação com uma língua enorme, a virtude do recato verbal na representação com os dedos sobre os lábios, a oração no gesto que eleva as mãos para o céu e o vício da gula na figura que suporta as mãos sobre o estômago (Barreiros: 1926 pp. 42 e 43). Para Jorge Rodrigues alguns dos modilhões também se integram no espírito da festa carnavalesca, tendo-se servido os seus autores das potencialidades da máscara como fuga do “eu” pelo uso do grotesco e do excesso. Destacou a figura do “fabuloso gato” que ostenta um expressivo sorriso humano, “a cara de olhos esbugalhados e língua deitada de fora de forma quase irracional”, o vício da embriaguez através de pipas e a virtude simbolizada na figura do orante mas aqui percebida com sentido irónico (RODRIGUES: 1995, pp.54 e 128-134).

Os 32 modilhões da capela do Espírito Santo são todos figurativos:

– Um é decorado com um tufo vegetalista, apresentando na base duas folhas que se enrolam suportando pequenas esferas e por trás outra que preenche o cachorro e apresenta nervuras.

– Quatro associam os elementos vegetalistas, folhas ou flores, com a representação humana. Num caso observam-se folhas com enrolamentos, noutro três folhas de contorno ovóide, num terceiro as folhas organizam-se formando uma rosácea de quatro pétalas e o último é adornado com uma bela e grande flor. As pétalas da rosácea e as folhas de contorno oval são muito semelhantes às dos capitéis das colunas do lado esquerdo do pórtico principal e a folha nervurada é idêntica às do capitel interior do lado direito do mesmo portal e modilhão com tufo vegetalista.

– Três reportam-se a animais: um gato, um bovino e um ovino.

– Um apresenta um nu em corpo inteiro indiciador de época mais remota do que os bustos próprios do românico tardio. Trata-se de uma possível alusão à sexualidade, comum em muitos cachorros do nosso românico, e em formas bem mais ousadas e explícitas do que a retratada.

– Dois parecem ser máscaras. Um é o modilhão que representa um gato. Tem forma de disfarce, personifica o riso e afasta-se da forma de representação natural dos outros animais do conjunto. O outro é o da cara, com olhos esbugalhados, grande boca e grande língua num expressionismo burlesco que se enquadra no contexto carnavalesco ou de representações de momos que sob disfarce gritavam, gesticulavam e apresentavam entrechos. A língua desmedida da figura humana é relacionada com a maledicência, conforme referido acima, numa intenção moralizadora.

– Uma figura que poderá ser um rosto de mulher, usando uma touca que lhe cobre a cabeça e o pescoço.

– Os restantes modilhões são bustos de homens: alguns com grandes barbas, outros sem elas, e um com generosos bigodes. Em Portugal, o tratamento dado à barba foi-se alterando ao longo da Idade Média. Assim, no século XII, por influência bizantina e muçulmana, deixaram-se crescer as barbas e bigodes, não sem a oposição da Igreja que via nelas uma imitação dos infiéis. No século XIII e início do século XIV impôs-se a moda da cara barbeada, voltando-se, posteriormente, a deixar crescer barba e bigode e a cortá-la, novamente, nos finais do século. No século XV, de forma efémera, verificou-se o uso de bigode patente na imagem do Infante D. Henrique nos Painéis de S. Vicente. Em face do aduzido, os modilhões da capela do Espírito Santo com representações de homens com barba ou sem ela enquadram-se nas modas do século XII ou XIV, mas a figura com bigodes parece mais ajustada ao século XV.

Algumas das figuras emergem de formas que evocam pipos. Sem contestar a relação estabelecida por Jorge Rodrigues com o vício da embriaguez, parece-nos que não devemos exagerar a sua representatividade. Apesar da forma de uma ripa, elemento constitutivo do pipo, se encontrar em alguns modilhões como na figura com as mãos sobre os lábios, figura com as mãos sobre o tronco e orante, outras leituras são permitidas. Por que não associá-la ao vestuário de lã, listado, produzido a nível doméstico? Ou ao pregueado? Uma destas imagens, ostenta em posição central duas barras decorativas que sugerem uma abertura de traje e respectivo remate. O vestuário do orante tem as mesmas caneluras e parece-nos distanciado do pipo.

Um outro vício representado é o da gula, sugerido por figuras com as mãos colocadas sobre o estômago, em jeito de satisfação.

A nível de vestuário, os modilhões deixam algumas informações. Observam-se vários gorros, de formas e tecidos diferentes, chapéus, mantos e uma gola que não deixa de lembrar os colarinhos renascentistas.

A galeria de modilhões desta capela, à semelhança de outras obras de arte, está envolta em simbolismo e conotações diversas. Não tem uma só leitura e não menos importante do que as interpretações actuais são as lições que, no passado, deles eram retiradas. No contexto da comunidade aldeã, alguns devem ter sido usados como modelos de reforço satírico como o caso da alcoviteira. Usando do exagero e da ironia estas modelações cumprem a função educadora remetida à escultura medieval destinada a um público maioritariamente analfabeto. No entanto, muitos são os modilhões que se afastam deste tipo de expressividade e nos remetem para a interioridade, nomeadamente, através de olhos semi-cerrados.

No seu conjunto, os escultores, conforme sublinhou Jorge Rodrigues, desfrutaram de uma significativa liberdade representativa. A nível técnico predomina a ausência de volume no trabalhar das formas, reduzindo-se o pormenor a contornos esquemáticos.

O lacrimal da nave norte, para além dos nove modilhões, integra um suporte descontextualizado. Efectivamente, parece tratar-se do capitel de uma coluna de fuste cilíndrico, de dimensões significativas, concebida para ser adoçada a uma parede como suporte de um arco. Tudo indicia tratar-se do reaproveitamento de trecho do anterior arco cruzeiro, com decoração vegetal semelhante à do portal axial do qual seria contemporâneo.

A capela tem um pequeno torreão situado por cima da cornija sul, próximo da frontaria. O vão sineiro é em arco de meio ponto e encimado por uma cruz latina. Não se sabe se existiu outro campanário anterior. Foram adquiridos sinos em 1679, 1796 e 1857. Este foi cedido por Pedro Caetano da Gama Azevedo de Araújo, senhor da Quinta da Boavista. Devia tratar-se do sino da capela então existente nesta quinta que foi transferida no século XX para o Monte de Santa Maria Madalena.

O adro também foi objecto de transformações ao longo dos tempos. Em 1551, segundo o Tombo, tinha um pomar de laranjeiras, figueiras e pereiras. A beneficiação do espaço exterior já estava a decorrer no ano de 1680. Nesta data, o adro tinha uma vinha. A mesa de pedra que se encontra num terraço a norte da capela, que se diz ser o centro das reuniões da Irmandade, foi construída em 1749 por António de Matos, perfazendo o seu custo 3470 réis. Em 1795, segundo o Tombo, o adro era cercado de degraus e paredes e tinha um olival. É o seu aspecto actual.

O acesso ao adro processa-se através de uma grande escadaria, a poente, outra a sul e outra a nascente. À esquerda desta escadaria ainda existe uma cruz grande e, por baixo do torreão, existiu outra de que ainda há lembrança. Pensamos tratar-se de cruzes de um calvário que não terá sido concluído. Registe-se que há um morro próximo que é conhecido por Monte do Calvário.

As linhas laterais das escadas de poente e sul dão ao trecho do muro de suporte forma trapezoidal. Os vértices superiores são decorados com pináculos rematados com esferas. Em posição central foi construído um fontenário, a fonte do Divino Espírito Santo, que mereceu ser integrada na Exposição de Fontes e Fontenários de Ponte Lima, realizada pelo Instituto Limiano, em 1986. É constituído por um só pano limitado verticalmente por duas pilastras. No remate, assente em cornija saliente, destacam-se três pináculos, dois laterais, alinhados com as pilastras, e um central assente em base de perfil recortado, com ornato contracurvo relevado, encimado por esfera e por cruz

A água jorra de três pias semicirculares, representando rostos masculinos com olhos salientes e grandes bigodes bem ao gosto de alguns modilhões. A elevação da cota da estrada ofuscou o pedestal deste fontenário. Com efeito, as bases das pilastras quase não se vêem, as bicas estão muito baixas e os lavadouros elevados em relação ao nível da água. O conjunto associa a racionalidade das linhas rectas com o dinamismo barroco das curvas e contracurvas acentuado pelos remates esféricos dos pináculos.

O fontenário tem uma lápide com a seguinte inscrição comemorativa:

SUIS EXPEN

SIS HOC OPUS FACERE IUSSIT

ANNO DOMINI 1720

 

Trata-se de um registo em latim que em português se traduz … mandou fazer esta obra à sua custa no ano do Senhor de 1720. A lápide foi picada na parte correspondente ao nome da individualidade a quem se atribuía o financiamento da obra (linha n.º 1 e início da linha n.º 2), por razões que se desconhecem.

O culto ao Divino Espírito Santo foi, ao longo dos tempos, elemento catalisador, causa e efeito de uma conjugação de forças que permitiram a conservação da capela, a actividade cultual, que extravasou a realização da festa do orago, a realização de uma feira anual até 1729, e quinzenal posteriormente, e a criação de uma Irmandade. A Irmandade do Divino Espírito Santo foi importante: agregou um número elevado de confrades de várias freguesias, movimentou verbas consideráveis, integrou numa rede de solidariedade indivíduos de origem social diversa e atraiu à sua gestão membros de famílias prestigiadas da região como os Pereira Pinto, Fagundes, Barbosas (da Carcaveira) e Gamas (da Boavista), entre outros.

 

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Tombo da Freguesia de S. Julião de Moreira do Lima de 1551, trasladado em 1720, Arquivo Distrital de Braga

Copea dos Autos do Tombo da Igreja e Freg.ª de S. Juliam de Moreira do Lima no termo de Ponte de Ponte de Lima: Feito no anno de 1795. Arquivo Distrital de Braga

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– Arquivo Irmandade do Espírito Santo

Publicado na LIMIANA - Revista de Informação, Cultura e Turismo n.º 36, de Fevereiro de 2014

 

Fotografias: Armindo Júlio Marques

Ponte de Lima no Mapa

Ponte de Lima é uma vila histórica do Norte de Portugal, mais antiga que a própria nacionalidade portuguesa. Foi fundada por Carta de Foral de 4 de Março de 1125, outorgada pela Rainha D. Teresa, que fez Vila o então Lugar de Ponte, localizado na margem esquerda do Rio Lima, junto à ponte construída pelos Romanos no século I, no tempo do Imperador Augusto. Segundo o Historiador António Matos Reis, o nascimento de Ponte de Lima está intimamente ligado ao nascimento de Portugal, inserindo-se nos planos de autonomia do Condado Portucalense prosseguidos por D. Teresa, através da criação de novos municípios. Herdeira e continuadora de um rico passado histórico, Ponte de Lima orgulha-se de possuir um valioso património histórico-cultural, que este portal se propõe promover e divulgar.

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